terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Os Ipês-Amerelos, por Rubem Alves

Uma professora me contou esta coisa deliciosa.

Um inspetor visitava uma escola. Numa sala ele viu, colados nas paredes, trabalhos dos alunos acerca de alguns dos meus livros infantis. Como que num desafio, ele perguntou à criançada: "E quem é Rubem Alves?". Um menininho respondeu: "O Rubem Alves é um homem que gosta de ipês-amarelos...". A resposta do menininho me deu grande felicidade. Ele sabia das coisas. As pessoas são aquilo que elas amam.

Mas o menininho não sabia que sou um homem de muitos amores... Amo os ipês, mas amo também caminhar sozinho. Muitas pessoas levam seus cães a passear. Eu levo meus olhos a passear. E como eles gostam! Encantam-se com tudo. Para eles o mundo é assombroso. Gosto também de banho de cachoeira (no verão...), da sensação do vento na cara, do barulho das folhas dos eucaliptos, do cheiro das magnólias, de música clássica, de canto gregoriano, do som metálico da viola, de poesia, de olhar as estrelas, de cachorro, das pinturas de Vermeer (o pintor do filme "Moça com Brinco de Pérola"), de Monet, de Dali, de Carl Larsson, do repicar de sinos, das catedrais góticas, de jardins, da comida mineira, de conversar à volta da lareira.

Diz Alberto Caeiro que o mundo é para ser visto, e não para pensarmos nele. Nos poemas bíblicos da criação está relatado que Deus, ao fim de cada dia de trabalho, sorria ao contemplar o mundo que estava criando: tudo era muito bonito. Os olhos são a porta pela qual a beleza entra na alma. Meus olhos se espantam com tudo que veem.

Sou místico. Ao contrário dos místicos religiosos que fecham os olhos para verem Deus, a Virgem e os anjos, eu abro bem os meus olhos para ver as frutas e legumes nas bancas das feiras. Cada fruta é um assombro, um milagre. Uma cebola é um milagre. Tanto assim que Neruda escreveu uma ode em seu louvor: "Rosa de água com escamas de cristal...".

Vejo e quero que os outros vejam comigo. Por isso escrevo. Faço fotografias com palavras. Diferentes dos filmes, que exigem tempo para serem vistos, as fotografias são instantâneas. Minhas crônicas são fotografias. Escrevo para fazer ver.

Uma das minhas alegrias são os e-mails que recebo de pessoas que me confessam haver aprendido o gozo da leitura lendo os textos que escrevo. Os adolescentes que parariam desanimados diante de um livro de 200 páginas sentem-se atraídos por um texto pequeno de apenas três páginas. O que escrevo são como aperitivos. Na literatura, frequentemente, o curto é muito maior que o comprido. Há poemas que contêm todo um universo.

Mas escrevo também com uma intenção gastronômica. Quero que meus textos sejam comidos pelos leitores. Mais do que isso: quero que eles sejam comidos de forma prazerosa. Um texto que dá prazer é degustado vagarosamente. São esses os textos que se transformam em carne e sangue, como acontece na eucaristia.

Sei que não me resta muito tempo. Já é crepúsculo. Não tenho medo da morte. O que sinto, na verdade, é tristeza. O mundo é muito bonito! Gostaria de ficar por aqui... Escrever é o meu jeito de ficar por aqui. Cada texto é uma semente. Depois que eu for, elas ficarão. Quem sabe se transformarão em árvores! Torço para que sejam ipês-amarelos...

* O psicanalista, educador, teólogo, poeta e escritor Rubem Alves nasceu no dia 15/09/1933, em Boa Esperança-MG, município onde está localizada a Serra da Boa Esperança, celebrizada pela música que leva seu nome, composta por Lamartine Babo. Bacharel e Mestre em Teologia, Doutor em Filosofia (Ph.D.) pelo Seminário Teológico de Princeton (EUA), é um consagrado autor de livros e artigos abordando temas religiosos, educacionais e existenciais, além de uma série de livros infantis.

Sobre a sapiência ilusória do Homo sapiens, por Hermann Hesse

Trecho do livro "O Lobo da Estepe" de Hermann Hesse, publicado em 1927

"Havia nesse olhar um tanto mais de tristeza que de ironia; era na verdade, um olhar profundo e desesperadamente triste, com o qual traduzia um desespero calado, de certo modo irremediável e definitivo, que já se transformara em hábito e forma. (...) O olhar do Lobo da Estepe penetrava todo o nosso tempo, toda a afetação, toda a ambição, toda a vaidade, todo o jogo superficial de uma espiritualidade fabricada e frívola. Ah! lamentavelmente o olhar ia mais fundo ainda, ia além das simples imperfeições e desesperanças de nosso tempo, de nossa espiritualidade, de nossa cultura. Chegava ao coração de toda a humanidade; expressava, um único segundo, toda a dúvida de um pensador, talvez a de um conhecedor da dignidade e sobretudo do sentido da vida humana. Esse olhar dizia: 'Veja os macacos que somos! Veja o que é o homem!' E toda a celebridade, toda a inteligência, toda a conquista do espírito, todo o afã para alcançar a sublimidade, a grandeza e o duradouro do humano se esboroava de repente e não passava de frívolas momices!"



Só para loucos... só para raros.

Hermann Hesse

E se Lamarck estivesse certo?

    O naturalista francês Jean-Baptiste de Lamarck (Figura 1), foi o primeiro cientista a propor uma teoria sistemática da evolução, contribuindo substancialmente para iluminar o obscurantismo religioso sobre o surgimento das espécies. Sua obra Philosophie Zoologique publicada em 1809 propunha que todos os organismos tendiam a um melhoramento constante rumo à perfeição, ocasionando um aumento de complexidade contínuo e progressivo. Dessa forma, Lamarck acreditava que as espécies não se extinguiam, mas sim, sofriam processos de transformação ao longo do tempo que seriam herdados de geração a geração. Esses processos consistiam no surgimento de novos caracteres para que o organismo se tornasse mais apto ao meio, ou ainda, no desaparecimento de caracteres não necessários a sua sobrevivência, caracterizando assim, a denominada lei do ‘Uso e Desuso’.    


Figura 1.  Jean-Baptiste de Lamarck (Bazentin, 1 de agosto de 1744 — Paris, 28 de dezembro de 1829).
 

    Se a teoria de Lamarck estivesse correta, não haveria ‘seleção dos mais aptos’, visto que todos os organismos seriam capazes de se modificarem para tornarem-se mais adaptados ao meio. Organismos da mesma espécie, habitando diferentes locais do planeta, iriam modificar-se separadamente de acordo com o ambiente. Deste modo, os processos de especiação seriam acelerados, fazendo com que a árvore filogenética sofresse mais processos de divergência.

    Com tantas transformações em vigência, será que alguma outra espécie conseguiria obter um desenvolvimento encefálico necessário para o surgimento da inteligência? Será que algum outro ser seria capaz de manipular o meio a seu favor, criando ambientes artificiais, dominando outras espécies ou ainda, criando a linguagem e usando o intelecto para criar música, arte (Figura 2) e para descrever a sua própria história? Bem, acredito que sim, seria possível outras espécies potencialmente desenvolverem consciência, diante do cenário Lamarckiano. Porém, seria improvável sabermos a probabilidade desse acontecimento. Acontece que, para que pudéssemos desenvolver a nossa inteligência, tivemos que concomitantemente desenvolver dominância sobre outras espécies e manipular o ambiente (Figura 3), afinal, como iríamos aumentar o nosso intelecto enquanto estávamos sendo perseguidos por um predador, ou enquanto estávamos mais sujeitos a variações ambientais? Ou seja, a dominância é uma característica inerente ao ser humano – e também, em diferentes níveis, a todos os predadores - que impede o desenvolvimento de outras espécies ao seu redor.



 Figura 2. "Crianças Geopoliticas Assistindo ao Nascimento do Novo Homem" - Salvador Dalí (1943).


  Figura 3. O domínio da paisagem pela espécie predadora denominada por ela mesma Homo sapiens sapiens.

    Qual seria então, o destino de nossa espécie dominante e intelectualizada se estivéssemos sendo arrastados pelas correntes da teoria Lamarckiana? O surgimento do Super-Homem. Acredito que se fossemos capazes de adquirir novas características, não nos tornaríamos mais musculosos ou bonitos, como muitos argumentam, visto que essas características somente aumentam nossa adaptação a uma sociedade lábil e superficial; acredito que desenvolveríamos características realmente necessárias à sobrevivência, ou seja, aquelas que envolvessem o desenvolvimento do intelecto. Sim, seríamos ‘cabeçudos’ e ‘atrofiados fisicamente’, porém aumentaríamos significativamente em nossa sociedade o progresso científico e tecnológico. Nesse contexto, o Super-Homem se caracterizaria não por seus músculos, mas sim, por sua capacidade intelectual, questionadora, curiosa e solucionadora de  problemas, levando a alguma esperança a respeito de nosso futuro no planeta, ou quem sabe ainda, em outros locais do Cosmos.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Ah, as palavras de Clarice...

"Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros."

"Porque o mais surpreendente é que, mesmo depois de saber de tudo, o mistério continuou intacto. Embora eu saiba que de uma planta brota uma flor, continuo surpreendida com os caminhos secretos da natureza."


"Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece..."



Clarice Lispector