terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

E se Lamarck estivesse certo?

    O naturalista francês Jean-Baptiste de Lamarck (Figura 1), foi o primeiro cientista a propor uma teoria sistemática da evolução, contribuindo substancialmente para iluminar o obscurantismo religioso sobre o surgimento das espécies. Sua obra Philosophie Zoologique publicada em 1809 propunha que todos os organismos tendiam a um melhoramento constante rumo à perfeição, ocasionando um aumento de complexidade contínuo e progressivo. Dessa forma, Lamarck acreditava que as espécies não se extinguiam, mas sim, sofriam processos de transformação ao longo do tempo que seriam herdados de geração a geração. Esses processos consistiam no surgimento de novos caracteres para que o organismo se tornasse mais apto ao meio, ou ainda, no desaparecimento de caracteres não necessários a sua sobrevivência, caracterizando assim, a denominada lei do ‘Uso e Desuso’.    


Figura 1.  Jean-Baptiste de Lamarck (Bazentin, 1 de agosto de 1744 — Paris, 28 de dezembro de 1829).
 

    Se a teoria de Lamarck estivesse correta, não haveria ‘seleção dos mais aptos’, visto que todos os organismos seriam capazes de se modificarem para tornarem-se mais adaptados ao meio. Organismos da mesma espécie, habitando diferentes locais do planeta, iriam modificar-se separadamente de acordo com o ambiente. Deste modo, os processos de especiação seriam acelerados, fazendo com que a árvore filogenética sofresse mais processos de divergência.

    Com tantas transformações em vigência, será que alguma outra espécie conseguiria obter um desenvolvimento encefálico necessário para o surgimento da inteligência? Será que algum outro ser seria capaz de manipular o meio a seu favor, criando ambientes artificiais, dominando outras espécies ou ainda, criando a linguagem e usando o intelecto para criar música, arte (Figura 2) e para descrever a sua própria história? Bem, acredito que sim, seria possível outras espécies potencialmente desenvolverem consciência, diante do cenário Lamarckiano. Porém, seria improvável sabermos a probabilidade desse acontecimento. Acontece que, para que pudéssemos desenvolver a nossa inteligência, tivemos que concomitantemente desenvolver dominância sobre outras espécies e manipular o ambiente (Figura 3), afinal, como iríamos aumentar o nosso intelecto enquanto estávamos sendo perseguidos por um predador, ou enquanto estávamos mais sujeitos a variações ambientais? Ou seja, a dominância é uma característica inerente ao ser humano – e também, em diferentes níveis, a todos os predadores - que impede o desenvolvimento de outras espécies ao seu redor.



 Figura 2. "Crianças Geopoliticas Assistindo ao Nascimento do Novo Homem" - Salvador Dalí (1943).


  Figura 3. O domínio da paisagem pela espécie predadora denominada por ela mesma Homo sapiens sapiens.

    Qual seria então, o destino de nossa espécie dominante e intelectualizada se estivéssemos sendo arrastados pelas correntes da teoria Lamarckiana? O surgimento do Super-Homem. Acredito que se fossemos capazes de adquirir novas características, não nos tornaríamos mais musculosos ou bonitos, como muitos argumentam, visto que essas características somente aumentam nossa adaptação a uma sociedade lábil e superficial; acredito que desenvolveríamos características realmente necessárias à sobrevivência, ou seja, aquelas que envolvessem o desenvolvimento do intelecto. Sim, seríamos ‘cabeçudos’ e ‘atrofiados fisicamente’, porém aumentaríamos significativamente em nossa sociedade o progresso científico e tecnológico. Nesse contexto, o Super-Homem se caracterizaria não por seus músculos, mas sim, por sua capacidade intelectual, questionadora, curiosa e solucionadora de  problemas, levando a alguma esperança a respeito de nosso futuro no planeta, ou quem sabe ainda, em outros locais do Cosmos.

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